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Que vocês vão ficar tão nervosos que vocês vão chegar em casa e vão vomitar sangue (2026)

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O texto abaixo é um e-mail que eu mandei pra logica-l em 2026ago24.
Uns dia depois eu copiei ele num comentário de um post da Ana Leticia de Fiori.


Oi Lista,

Os alunos que eu costumo ter estão num nível muito mais básico do que os do Daniel, e praticamente nenhuma das idéias de como usar IA na educação que o Sidorkin menciona nesse draft aqui,

SidorkinP19 Students with learning differences may find in AI a patient, nonjudgmental tutor

se aplica aos meus alunos.

Vou tentar dar um resumo do que eu pretendo explicar pros meus alunos. Por enquanto essas idéias estão em vários textos bagunçados, então acho que vai ser melhor - pra mim e pra vocês - eu tentar resumi-las de um jeito novo. Lá vai - aliás, aqui vão só algumas das historinhas principais...


Os alunos estão chegando nas minhas turmas sem terem uma noção clara de que "entender", "decorar" e "copiar" são processos mentais bem diferentes, e que usam "músculos mentais" diferentes.

Pra quem tem bastante prática com esses processos, como a gente, a diferença entre eles é tão gritante como a diferença entre "braço" e "perna" - por exemplo, imagina que duas pessoas estão cada uma do lado de um skate no chão, e uma delas levanta o skate abaixando pra pegar ele com a mão e a outra levanta ele pisando na ponta dele com o pé... MUITA GENTE NÃO CONSEGUE VER ESSA DIFERENÇA.

A minha historinha preferida sobre alguém que não consegue ver uma diferença que pra gente é óbvia é essa aqui. O `P'edrinho está na fase `P'ré-silábica, e um dia a professora passa um ditado, uma das palavras é "ÁRVORE", e o Pedrinho escreve "VROOEA". Quando ele vê no teste corrigido que ele errou ele cai no choro - porque ele ainda não tem as estruturas mentais necessárias pra entender que a ordem das letras importa.

Agora imagina que o Alex e a Thamy vão fazer prova pra Polícia Federal, e essa prova tem uns testes de aptidão física. Os dois moram perto de uma pista de corrida, e uma das coisas que o Thamy faz pra se preparar pra essa prova é que todo dia ela vai na pista e corre várias voltas. O Alex faz algo parecido mas ao invés de correr a pé ele dá várias voltas em torno de pista de Uber. Aí quando chega o dia da prova de aptidão física a Thamy passa nela e o Alex não.


Acho que eu tou meio obcecado por um problema que é difícil demais, e que imagino que vocês lidem com ele dizendo "ah, só uns 25% dos alunos são assim, então a gente só reprova eles e pronto"...

Então: 25% dos meus alunos, ou talvez mais do que isso, não têm as estruturas mentais necessárias pra entenderem o que é uma pessoa, o que é conversar com uma pessoa, o que é explicar coisas pra uma pessoa de um modo que ela entenda, e como eles não têm prática suficiente de se colocarem no lugar dos outros eles não conseguem comparar isso com a versão espelhada disso, em que uma outra pessoa te explica algo, e ela pode te explicar de um jeito que você entenda ou de um jeito que você não entenda, e você pode fazer perguntas pra ela - se você souber perguntar, claro...

Aqui tem uns textinhos bem bons sobre como é difícil aprender a falar em público na universidade, e como isso geralmente é um processo de anos:

https://news.ycombinator.com/item?id=49224294
HNDanishHigh Danish high schoolers will have to verbally defend written assignments

E olha esse texto aqui, que fala bastante sobre "shared knowledge":

PhillipsCIEp220 (p.204) what is publicly shared knowledge defines the granularity of acceptable mathematical reasoning within a given context

Imagina um aluno que só conversa com IAs. Pra ele o custo psicológico de falar com outras pessoas da turma, seja por voz ou nos canais de chat, é tão alto que ele vai ficar quase que totalmente de fora da construção de "shared knowledge", e ele vai ter muito mais dificuldade que os outros pra saber se um passo numa conta dele é claro ou não, se uma justificativa dele é boa ou não, e coisas assim...

Aí eu tou pretendendo dizer pros meus alunos que: gente, esse curso aqui é principalmente sobre técnicas de descobrir coisas sozinho, e pra "aprender a descobrir" vocês vão ter que aprender a fazer perguntas boas, o que é bem difícil, e no processo vocês vão ter aprender a fazer perguntas ruins, e vão ter que aprender a falar, que pra muitos de vocês vai ser a coisa mais difícil da vida de vocês, tipo que vocês vão ficar tão nervosos que vocês vão chegar em casa e vão vomitar sangue, e não adianta vocês tentarem ajustar a dose dos remédios pra vocês ficarem "normais", porque não tem como a gente ficar normal quando a gente tá aprendendo a coisa mais difícil da vida de gente...

Eita, vou ter que sair, então vou mandar isso como está. Acho que eu deixei claro porque é que eu não vou fazer chatbots pros meus cursos, né...

[[]],
Eduardo