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Ferramentas para Historinhas (30/out/2026)
- 1. Links
- 2. Transcrição/legendas
Vou fazer pelo menos duas apresentações com esse título.
A primeira foi em 30/out/2026, online na UFPE:
slides,
transcrição,
vídeo.
A segunda provavelmente vai ser neste evento,
no IPUB/UFRJ.
Alguns links:
- Falta misandria no movimento trans:
- Geladeira:
PDF,
txt com algumas historinhas a mais
- Camille Paglia: Personas Sexuais, (cap. 1)
- J.M. Coetzee: A vida dos animais
- Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas (cap. 13)
- Ferramentas para ativistas:
"ninguém lê textos grandes"
- The Age of Alice: Fairy Tales, Fantasy, and Nonsense in Victorian England
- Sobre a exposição QueerMuseu
- Sobre o "Psicopata do CEFET":
0:02 - Beleza. Agora é 30 de outubro, uma sexta-feira. 30 de outubro de 2026,
0:09 3 e 13 da tarde, a gente vai pra apresentação do professor Eduardo Ochs, da
0:17 computação da UFF.
0:21 É, então, é um prazer recebê-lo. A gente tá aqui num grupo da Filosofia,
0:26 com graduandos, mestrandos e e doutorandos, de Recife.
0:30 Tá aparecendo em cascata aqui pra gente. É isso mesmo?
0:33 - Não, é isso mesmo. É porque eu queria ver vocês um pouquinho antes de começar.
0:37 Então, vou começar, tá?
0:39 - Só pra gente ajustar um pouco, Eduardo...
0:42 Seria possível alguma coisa com até meia meia hora e depois mais meia hora de discussão?
0:47 - Sim! Eu planejei isso. Meia hora.
0:50 - Outras coisas importantes.
0:51 - Se eu tiver demorando demais, me apressem. Ou digam "acabou", tá?
0:56 - Tá bom. Seja bem-vindo.
0:58 - É... então, o meu computador é muito antigo, ele é maravilhoso pra alguumas coisas,
1:01 mas ele tem umas coisas quebradas. A câmera dele não funciona,
1:05 então escolhi eu uma foto antiga minha, aqui...
1:08 Então, pronto. Agora vocês já viram como é que eu era em 2019...
1:12 E agora eu vou começar a apresentação. O título é "Ferramentas para Historinhas"...
1:19 e, como o Marcos falou, o meu nome é Eduardo Ochs... eu trabalho num campus pequeno
1:23 que a UFF tem em Rio das Ostras, o Pólo Universitário de Rio das Ostras,
1:27 num departamento chamado RCN, que é o Departamento de Ciências da Natureza.
1:31 E atualmente meu cargo lá não é "professor", é "Psicopata do CEFET".
1:35 Eu vou contar isso num instante, tá?
1:37 Mas deixa eu começar por umas historinhas ao invés de começar pela introdução.
1:41 Vou fazer a introdução de depois mostrar algumas outras coisas.
1:46 Então, é... deixa eu fazer mais uma apresentação...
1:50 Eu nasci em 1971, e fui adolescente na década de 80 no Rio de Janeiro...
1:56 um lugar horroroso, incrivelmente preconceituoso.
1:59 Eu sou um montão de letras do espectro LGBT... LGBTQIA+, etc...
2:04 desde a época em que essas letras não existiam...
2:07 e aí, ao invés de rótulos, a gente tinha que usar historinhas para explicar quem a gente era.
2:11 Aí... hoje em dia eu moro na internet, tá? Porque Rio das Ostras é um lugar muito pequeno
2:14 e eu tô proibido de entrar na universidade... eu vou contar isso depois.
2:20 Há umas semanas atrás eu mandei umas perguntas pro Marcos Silva
2:22 porque eu tava adorando os artigos que ele tava compartilhando...
2:26 ele achou as perguntas boas e me convidou para apresentar alguma coisa no seminário.
2:30 Na verdade ele me convidou para escrever um artigo... e eu achei...
2:33 eu disse: "Marcos, peraí, você tá me superestimando, esse material não tá nada arrumado,
2:38 posso fazer uma apresentação ao invés?" - e ele concordou.
2:42 Então, deixa eu começar com é, uma... uma mini-historinha.
2:47 Seguinte. É... vocês vão ver que ela é bem compacta.
2:50 Tem trabalhos em que o que você precisa para ser promovido
2:53 é rir do seu chefe quando ele faz piadas sobre estupro.
2:55 Repara que isso é só o núcleo da historinha...
2:57 eu poderia contar uma versão muito maior dela.
3:03 Eu poderia dizer que eu tava, é... dando um curso... digamos, uma optativa...
3:06 e eu comecei apresentando o curso e falando pros alunos:
3:10 "Vocês devem estar se perguntando: será que esse curso vai me preparar...
3:12 vai preparar vocês pro mercado de trabalho?
3:16 Bom, reparem, existem muitos tipos de trabalhos e tem trabalhos
3:19 em que o que você precisa para ser promovido é rir do seu chefe
3:23 quando ele faz piadas sobre estupro."
3:25 Então, repara, nessa historinha maior o núcleo dela é esse pedaço daqui,
3:30 e o núcleo mesmo é essa expressão daqui,
3:32 que acaba servindo para muitas outras coisas depois.
3:36 Lembrem que se o meu mouse parar de se mexer, por favor me avisem...
3:39 que eu vou ter que reiniciar alguma coisa, tá?
3:44 É... deixa eu fazer uma outra conexão com uma coisa que vocês já viram muito.
3:48 Tem uma expressão, não sei se ainda se usa, era comum em 2014, algo assim...
3:52 que era "deslizamentos semânticos:. Então, por exemplo,
3:56 quando alguém fala em uma mulher trans num banheiro feminino
3:59 algumas pessoas pensam num homem vestido de mulher num banheiro feminino,
4:03 e portanto um pervertido num banheiro feminino e, portanto,
4:06 um estuprador num banheiro feminino.
4:12 É... deixa eu contar uma outra história pequenininha...
4:15 "memórias são mais legais do que fotografias porque as memórias a gente pode distorcer à vontade".
4:23 Deixa eu explicar um pouco isso... Tem uma uma frase que um amigo meu dizia que eu acho genial,
4:27 que era: "resumiu o tanto que ficou errado". Essa frase serve para um montão de coisas.
4:32 É... em alguns casos eu vou pegar determinadas histórias e distorcer elas completamente,
4:37 e resumir elas de um jeito que fica errado mas fica ÚTIL,
4:40 e deixa fazer um disclaimer.
4:42 Algumas das histórias que eu vou contar aqui vão ser baseadas em coisas que aconteceram
4:45 e em pessoas que existiram, mas eu vou distorcer elas tanto
4:49 que mal vai sobrar uma migalhinha do original.
4:51 Então se alguém me disser "Não foi bem assim que aconteceu"
4:54 eu vou responder: "Pois é, eu avisei que ia distorcer tudo!
4:56 Claro que não foi bem assim que aconteceu."
5:01 É... deixa eu falar um pouquinho sobre essa ideia de núcleo.
5:04 Vou começar a jogar umas referências aqui, porque uma das idéias
5:07 é compartilhar coisas bacanas com vocês.
5:10 O meu gosto para filmes é bem estranho e o meu filme preferido
5:13 é um filme que provavelmente vocês nunca ouviram falar,
5:15 que é o "Mahabharata", do Peter Brook, que é uma peça de teatro adaptada pro cinema...
5:21 e ele também escreveu um monte de livros.
5:24 E isso aqui é um trecho de um livro dele. Eu não vou ler esse trecho,
5:26 mas ele fala sobre que às vezes a gente assiste uma peça, um filme, alguma coisa assim,
5:30 e fica uma coisa na nossa cabeça, e ele começa a falar dessa coisa
5:33 como o núcleo do dessa peça ou desse filme.
5:37 E num certo sentido a peça, ou o filme, ele é construído
5:40 pra gente ficar com alguma coisa na cabeça durante anos...
5:45 É... essa cena daqui é de um outro filme dele, "Encontro com Homens Notáveis",
5:50 que é sobre o Gurdjieff. Quando o Gurdjieff era jovem
5:53 ele e os amigos dele ouviram falar sobre sufis e resolveram circular pelos países da região
5:59 pra tentar encontrar algum sufi de verdade. E num determinado momento
6:03 eles estão tomando chá numa casa de chá no Afeganistão,
6:05 sentados num tapete de lá tomando chá...
6:09 e um sheik se aproxima e diz: "Aqui se pensa bem" - e se senta junto com eles.
6:13 E para mim esse é o núcleo do filme. Essa foi a cena que ficou na minha cabeça para sempre,
6:18 e que me ajudou a pensar num montão de outras coisas.
6:23 É... isso aqui é um outro trecho que eu acho importante desse livro...
6:28 É... eu só vou falar um pedacinho dele... Ele fala sobre como é que
6:32 você monta uma peça de teatro e depois de um tempo ela não tem mais impacto.
6:36 e ele diz que peças de teatro em geral funcionam no máximo 5 anos
6:39 depois elas perdem a força e você tem... aquela montagem não funciona mais.
6:44 Isso funciona para muita coisa também.
6:46 Às vezes a gente encontra uma forma de dizer uma coisa que é perfeita naquele momento,
6:50 ou é perfeita para um determinado público alvo, e depois ela pára de funcionar.
6:55 Ele fica meio uma antiguidade - ela perde a vitalidade.
7:00 É... deixa eu falar de uma outra grande referência para mim.
7:04 É o seguinte... é um livro que eu nunca encontrei um scan inteiro dele...
7:10 É um livro do Umberto Eco chamado "Lector in Fabula"...
7:14 E ele tem uma seção, que é a seção 3.5, "Autor e leitor como estratégias textuais".
7:20 E aí ele explica de um jeito que eu acho fantástico o que que é o "leitor modelo" de um texto.
7:27 É... só que eu não quero falar sobre isso - fiquem só com essa expressão na cabeça...
7:32 Deixa eu contar uma historinha que tem a ver com isso.
7:36 Em 2012 a gente teve uma greve grande, de quase todas as universidades federais,
7:42 e eu participei dela o máximo que eu pude. Num determinado momento eu tentei me juntar
7:46 com os professores do departamento de Serviço Social do meu campus...
7:50 mas eu comecei a ver que o que eles queriam era produzir textos de meia página sem link nenhum...
7:55 e eu fiquei revoltadíssimo com aquilo, porque a sensação que me dava é que eles tavam
7:59 fazendo papel de especialistas que estavam resumindo coisas pra gente burra.
8:03 As pessoas burras não ganhavam nenhum link para ler o original...
8:06 É como se as pessoas só pudessem ler resuminhos, e tinham que confiar em quem tava escrevendo.
8:13 Aí eu comecei a tentar discutir isso com as pessoas do Serviço Social
8:17 com quem eu tava conversando...
8:19 e uma professora de lá me disse: "NINGUÉM LÊ TEXTOS GRANDES".
8:24 É... como é que a gente responde isso?
8:26 Tem várias respostas para isso. E, como sempre...
8:29 a mais adequada depende do contexto, né?
8:32 Por exemplo, eu posso dizer que algumas algumas pessoas lêem textos grandes sim,
8:35 e elas influenciam as outras. Eu também posso dizer
8:38 que as pessoas QUE IMPORTAM lidam muito bem com textos grandes e cheios de links...
8:43 E já que você não lê textos grandes, VOCÊ NÃO IMPORTA.
8:48 Eu também posso dizer: VOCÊ NÃO É O MEU PÚBLICO ALVO.
8:52 Como é que a gente escolhe a mais adequada?
8:54 Às vezes a mais adequada é a mais grossa, às vezes a mais adequada é a mais curta,
8:57 às vezes a mais adequada é a mais polida...
8:59 Essas coisas assim.
9:04 É, deixa eu contar uma... uns outros elementos que a gente vai usar depois...
9:10 É... isso aqui é um trecho de um zine que que eu fiz...
9:14 Não vou ler esse trecho porque a gente tem muito pouco tempo,
9:16 mas tem links para pra esse texto no link que eu distribuí...
9:21 E agora olha várias historinhas sobre isso.
9:23 Primeiro: quando eu era criança, eu vivia num mundo incrivelmente homofóbico.
9:27 Aqui tem uma explicação mais detalhada...
9:30 Aqui tem uma versão muito mais curta do que eu quero falar:
9:33 "Se eu pensasse _durante um segundo_ em dar um abraço num coleguinha, eu era viado e eu ia pro inferno"...
9:40 e "tudo que tinha a ver com cuidado e carinho era proibido aos homens".
9:44 Aqui o núcleo é "durante um segundo".
9:48 É... como é que isso funciona?
9:52 Se a gente pensa durante um segundo em dar um abraço num coleguinha, é porque _lá no fundo_ a gente é viado.
9:57 Qual é o critério de verdade pra, sei lá, pra "você é viado" ou "você não é viado"?
10:02 Então vamos pensar em termos de critérios. Se a gente usa essa idéia do "basta um segundo", "lá no fundo",
10:09 e a idéia de que tá todo mundo tentando esconder a verdade, tá todo mundo dentro do armário,
10:14 a gente pode aplicar esse critério para outras coisas também....
10:17 Por exemplo, se eu acho uma mulher bonita durante um segundo é porque eu quero comer ela! Tá?
10:25 Essa historinha é muito útil para falar de coisas que se der certo eu vou
10:28 conseguir falar hoje, mas não sei se o material tá arrumado o suficiente.
10:33 É... aqui tem um pedaço em que falta um slide, então vou pular...
10:39 Deixa eu contar uma outra história que tem a ver com isso... é, essa história é verdadeira, tá?
10:45 Aconteceu alguns anos atrás, quando eu tava tentando socializar com os meus coleguinhas do departamento.
10:51 Eles fizeram uma reunião de... uma confraternização de fim de ano
10:55 numo lugar que era um restaurante, churrascaria, bar, um montão de coisas juntos.
11:01 E eu tava tentando conversar com os físicos. Os físicos eram as pessoas A, B e C daqui.
11:07 Eles tinham passado o carnaval juntos, no Rio, com outro colega que também era físico, que eu tô chamando de D, e que
11:14 não tava lá com a gente, e que trabalhava num outro campus. A gente trabalha em Rio das Ostras,
11:19 e ele trabalha em Macaé, a meia hora de distância.
11:23 Aí meus colegas A, B e C começaram a falar sobre como num momento, em fevereiro -
11:28 repara, a gente estava em dezembro, e eles tavam falando de fevereiro...
11:30 o colega D fez um gesto assim com a mão, e PORTANTO ele é viado.
11:37 E eles entraram nesse assunto, e não saíam nunca mais. Era um assunto infinito.
11:40 Era um buraco negro. Não terminava nunca.
11:43 Tá? Na verdade, é... foi aí que eu desisti de conversar com eles, eu vi que era só de desgaste tentar socializar
11:51 Mas aqui a gente tá falando de como montar historinhas, como é que é que a gente escolhe...
11:56 na verdade o grande tema é qual melhor historinha pra determinada situação... e coisas assim.
12:03 Agora deixa eu contar mais um elemento.
12:07 É, seguinte... quando eu era adolescente, na década de 80, suicídio era um negócio muito comum no meu grupo, e drogas também.
12:14 E uma vez uns amigos meus tomaram trombeta juntos, e depois de muitas horas juntos cada um foi pra sua casa.
12:20 E aí às 5 da manhã um deles foi pro ponto de ônibus esperar um ônibus que talvez só fosse passar às 6...
12:27 e ele ficou lá esperando. Ele ficou sentado na calçada e atrás dele tinha um arbusto. E ele ouviu umas vozinhas, e via com o canto do olho uns duendes
12:35 que ficavam falando sobre ele e rindo... parecia que os duendes tinham descoberto coisas horríveis sobre ele e estavam contando uns pros outros.
12:44 Reparam que nesse ponto já tá meio implícito que as coisas horríveis são as coisas que ele tá escondendo, né?
12:49 Tipo, sei lá, que lá no fundo ele é viado, alguma coisa assim...
12:52 E aí toda vez que ele tentava se virar pra olhar direito os duendes do arbusto os duendes sumiam.
13:00 Então, repara, aqui aparecem uns elementos extras pra falar dessas coisas.
13:03 Agora a gente pode falar de duendes - os duendes viram uma entidade externa que só aparece quando a gente toma trombeta.
13:13 Agora deixa eu falar de mais uma outra história que também é baseada num cara real.
13:18 São vários slides sobre isso, tá?
13:20 Tinha um amigo meu que eu hoje em dia me refiro a ele como "O Meu Ex-Amigo Hétero".
13:35 Num certo momento eu chamava ele de "O Meu Amigo Hétero", mas a gente brigou e ele virou "O Meu Ex-Amigo Hétero".
13:32 Vamos começar por aqui. Imagina que um personagem, Alex, fala sobre futebol o tempo todo...
13:37 gente, deixa eu só verificar uma coisa. Vocês estão vendo quando meu mouse mexe?
13:42 - Sim.
13:44 - Tá. Jóia. É... imagina que o Alex fala sobre futebol o tempo todo e ele tá sempre com a camisa do Flamengo...
13:39 Ele cumprimenta as pessoas dizendo: "E aí, tricolor? E aí, botafoguense? E aí, flamenguista?"
13:56 Então, vamos comparar ele com o Bob. O Bob ele mal lembra que futebol existe.
14:00 E se a gente pergunta para ele "qual é seu time?" ele precisa pensar uns 30 segundos até lembrar...
14:05 e aí ele diz: "Ah, é Flamengo".
14:07 Então, repara, nessa história daqui, o Alex é muito flamenguista e o Bob é pouco flamenguista.
14:13 Não é um traço relevante pro Bob ele ser flamenguista.
14:17 Então não faz sentido a gente chamar o Bob de flamenguista. Pode ser que pro Alex faça, mas pra gente não faz...
14:22 não é um traço relevante.
14:25 Então, quando eu falo desse cara como "O Meu Ex-Amigo Hétero"...
14:29 ele era MUITO hétero. Isso era o traço principal dele.
14:33 Se eu tiver conversando com gente que leu Judith Butler a beça eu posso dizer que ele "performava heterossexualidade",
14:39 ou que ele "performava heteronormatividade"...
14:42 ou eu posso até pegar mais pesado e dizer que ele "performava heterossexualismo".
14:47 Depende de com que eu tou falando e quantos termos a pessoa conhece, né?
14:52 Então, repara, tem... já tem alguns truques nessas expressões aqui...
14:55 A gente precisa de expressões pequenas pra montar as historinhas... e tem outros.
15:02 Aqui eu marquei o "O", tá? Eu marquei o "O"... eu ressaltei o "O" porque ele era o meu único amigo hétero numa época,
15:11 e depois ele virou meu único ex-amigo hétero, né?
15:13 Porque, claro que eu não tou definindo ainda o que que "hétero", mas fica meio implícito aqui... não dá para conviver com essa gente não.
15:23 E ainda tem esse "Ex-" daqui, que eu vou explicar no slide seguinte.
15:28 E agora vou contar uma outra historinha.
15:31 É... de 94 até 96 o meu melhor amigo foi um cara chamado Daniel. Nós éramos muito colados, a gente se falava todo dia e
15:39 quando a gente saia com os amigos nós frequentemente completávamos as frases um do outro. Tá? Muito colados mesmo.
15:44 Aí onde aconteceu uma coisa que é uma história fantástica, mas que agora não dá tempo de contar, e ele se afastou de mim.
15:50 Aí ele fez uma espécie de reengenharia mental na cabeça dele, mudou todo o modo dele de pensar, e me apagou da história dele. Eu fiquei péssimo.
15:58 Semanas depois ele reapareceu no nosso grupo de amigos, ele tinha escrito uma espécie de autobiografia de umas 30 páginas -
16:05 o título era "Vida de Daniel" - tinha posto no blog dele. Eu aparecia en passant em duas frases e só - ele realmente tinha me apagado.
16:13 Aí eu fiquei tão mal que eu ficava remoendo aquilo o tempo todo.
16:16 E eu comecei a me referir a ele como meu ex-namorado pras pessoas acharem natural ficar falando dele, né?
16:22 Se eu ficasse falando "meu ex-amigo" as pessoas ficam iam ficar meio incomodadas. E deu super certo!
16:28 O assunto Daniel virou um dos nossos assuntos preferidos e as pessoas resolveram que era muito mais legal a gente falar sobre o Daniel do que com o Daniel.
16:35 Então, repara, tem um truque aqui. Quando a gente chama uma pessoa de "ex" passa a ser socialmente aceitável a gente falar muito sobre essa pessoa.
16:44 Todo mundo entende que a gente tá tentando processar o que aconteceu.
16:50 Agora deixa eu voltar pra história do meu ex-amigo hétero.
16:56 É... isso aqui é uma versão adaptada de um e-mail que a gente trocou na nossa última tentativa de conversar...
17:03 ele já tinha brigado com quase todo mundo... então isso foi uma fase que ele que ele certamente já superou. Ele já não é mais aquilo.
17:09 Ele me disse isso aqui. Eu tava contando que eu tava com uns ataques de pânico, e ele disse:
17:15 Ataques de pânico são coisa séria, tratáveis, necessariamente - ao meu ver - com medicação.
17:22 Acho que você deveria consultar um psiquiatra.
17:25 Então aqui já tem uma coisa: ele achava que a gente trata essas coisas com remédios e eu achava que a gente trata de outro jeitos...
17:31 por exemplo, montando historinhas! Tá?
17:34 Daqui a pouco eu vou mostrar em que situações a gente pode montar historinhas pra tentar resolver problemas muito complicados.
17:40 E ele disse: "Talvez você devesse considerar mudar de psicólogo, talvez para um profissional que ajude
17:49 você, aos poucos a enfrentar os seus medos, que você já explicou muito bem quais são, mas que você está defendendo com unhas e dentes, talvez sem perceber.
17:57 Aí aqui tem uma outra coisa que eu acho importantíssima.
17:59 Lembra? Eu tava chamando ele de "Hétero". E aqui tem uma distinção entre, é...
18:06 Aqui tem a ideia de FRESCURA. Eu tava tentando evitar determinadas situações, ele achou que isso era frescura.
18:14 Aos pouquinhos eu encontrei um jeito melhor de falar disso. E a imagem que me veio é o seguinte:
18:21 se você tem um machucado na perna, você vai ter que decidir se aquele machucado tá mais para um arranhãozinho, que é só você esquecer dele que ele passa,
18:29 ou se é um tipo uma perna quebrada, que você tem que tratar, você tem que ir no médico, você tem que imobilizar, tem que botar remédio, sei lá o que mais.
18:41 É... basicamente é a responsabilidade da gente decidir se a gente vai tratar aquilo como frescura ou como algo que precisa ser cuidado de outras formas.
18:51 E aí... nessa fase o meu... esse meu Ex-Amigo Hétero, ele tava numa fase em que ele achava que tudo era frescura.
18:58 Se você decidisse que as coisas eram frescura você ficava mais corajoso, você começava a tomar iniciativas e não sei que lá,
19:06 e você encontrava o amor da sua vida no Tinder e umas coisas assim, tá?
19:11 Eu tou falando super mal dele, mas eu avisei que eu ia distorcer tudo, tá? Então tou falando de uma versão muito distorcida do cara, tá?
19:17 Então não adianta me processar porque eu tou mais ou menos imune, eu conheço a legislação.
19:23 Então, eu disse lá no início que eu sou um monte de letras do espectro LGBT desde uma época em que essas letras não existiam...
19:32 elas tavam começando a aparecer aos poucos... as pessoas conheciam...
19:36 as pessoas que eram do babado conheciam umas pouquinhas letras, e as outras estavam aparecendo aos poucos, e coisas assim...
19:43 E em muitos sentidos eu sou uma pessoa trans, mas isso não é muito visível...
19:47 Eu passei anos tentando descobrir que que eu fazia com isso,
19:51 porque desde bem pequeno eu já tinha a sensação de que eu não cabia no mundo masculino,
19:55 mas eu não sabia expressar isso direito, porque afinal de contas, quando a gente tá numa situação dessas
20:00 a gente tá falando de termos são muito vagos. A gente não tem uma definição só pra que que é homem, que que é mulher, e coisas assim...
20:08 E se a gente explicar isso de um jeito ruim, as pessoas vão entender tudo errado...
20:11 Possivelmente de um jeito que a que a gente vai achar meio nojento, sei lá, vão reduzir tudo a roupas
20:20 e com quem a gente quer fazer sexo compulsivo, e coisas assim.
20:25 E na verdade a gente quer inteligibilidade,
20:28 a gente quer que as pessoas entendam como a gente funciona e nos tratem do jeito que a gente quer.
20:33 Isso dá muito trabalho, porque a gente tá tentando expressar coisas que não cabem na linguagem das pessoas em torno da gente...
20:41 que são muito difíceis de expressar, e que talvez os conceitos se tornem familiares muito aos poucos.
20:47 Então deixa ler essa seção daqui, que é uma seção do...
20:50 de um zine que eu fiz um pouco depois de eu ter começado o tratamento hormonal.
20:58 Tinha muitos tipos de pensamentos que eram "coisas da viado".
21:00 Os "homens de verdade" - reparem nas aspas, tá? - Nunca pensavam naquelas coisas.
21:07 Só que eram tantos tipos de pensamentos que eram "coisa de viado" que eu não acreditava que os "homens de verdade" nunca tivessem pensado nenhum deles.
21:14 O tom do modo como os homens falavam tinha certezas demais.
21:19 Eu fui chegando à conclusão de que os "homens de verdade" apagavam as memórias de terem pensado cada coisa que não deviam.
21:25 Quando eles diziam que nunca tinham pensado as coisas proibidas isso não era exatamente uma mentira - eles acreditavam totalmente.
21:31 Eles viviam com muito poucas memórias porque eles viviam num eterno presente - sem memórias, e sem interior.
21:40 Aqui é continuação dessa seção, tá?
21:43 Essa sacação me fez entender um princípio básico do masculino: o "lavou, tá novo".
21:48 Nada se fixa. A cicatriz de um machucado desaparece no dia seguinte,
21:52 a dor de um chute na canela passa em segundos, uma brincadeira babaca de um coleguinha daqui a 2 minutos a gente já esqueceu.
21:58 Por trás disso tem a idéia de que a gente tá sempre treinando para ficar cada vez mais forte,
22:04 e a gente sacaneia nossos amigos "de brincadeira" não só porque é engraçado,
22:08 mas também porque quem é sacaneado ri em triunfo quando vê que já é forte o suficiente e a sacanagem não doeu.
22:16 Tá? Então, eu precisava de alguma forma definir que que era masculino e feminino PRA MIM...
20:20 Isso do "pra mim" é muito importante, tá? Porque as pessoas tinham noções muito diferentes dessas coisas...
22:24 e eu resolvi que pra mim o traço mais essencial do masculino era o "lavou, tá novo".
22:31 Então, algumas mulheres eram homens PRA MIM, alguns homens eram mulheres... e eu ia usar isso aqui como a minha definição.
22:39 E essas definições servem pra gente dialogar com as pessoas certas, tá?
22:42 Lembrem do que eu falei lá no início... Peraí, cadê? Cadê? Ah, aqui.
22:52 Então, a questão é: quem é nosso público alvo? São as pessoas que entendem, são as pessoas que lêem textos grandes, etc, etc, etc...
23:03 Tá? É... peraí, deixa eu só fazer um desabafo, tá?
23:09 É... eu avisei pro Marcos que eu ia tentar falar de umas coisas que eu não sabia se eu ia conseguir arrumar bem o suficiente...
23:17 e aí tem uma coisa que eu não sei se eu cheguei a dizer ou se eu só pensei, que era:
23:21 "Ah, mas eu não sei se vai ficar bem arrumado, mas pelo menos eu vou falar de tanta coisa legal e útil que as pessoas vão me perdoar". Tá?
23:29 E aí ele me encorajou disse: "Não, não é uma coisa entre alunos, não precisa ficar muito preocupado não..."
23:33 Aí eu tive coragem e resolvi fazer uma apresentação... e resolvi fazer uma apresentação bagunçada mesmo.
23:41 Então deixa dar um outro elemento aqui.
23:43 Aliás, peraí, gente, desculpa. Quanto tempo eu tenho?
23:50 - Você tem mais 10 minutos.
23:52 - Ah, perfeito. Ótimo. Então tá, a conta tá certinha.
23:56 É, uma vez uma amiga minha, que era trans e era professora de matemática, fez um post no Facebook sobre um artigo sobre o Lewis Carroll
24:01 que ela tinha acabado de ler e tinha achado fantástico, super cabeça...
24:06 Aí eu li o artigo também, a gente começou a conversar, e aí uma amiga dela, que era cis, entrou na discussão
24:13 e ficou falando que o Lewis Carroll era pedófilo. E aí toda vez que que a minha amiga e eu tentávamos falar alguma coisa -
24:17 dizer "Não, o artigo não é sobre isso, tem certas sutilezas, a cultura é diferente, não sei quê..." -
24:24 aí essa menina dizia que nós estávamos desviando o assunto pra defender um pedófilo, e não saia disso de jeito nenhum...
24:30 E ela dizia que PORTANTO nós éramos DEFENSORES DE PEDÓFILOS.
24:35 Não sei se você já se vocês já passaram muito por coisas assim, mas acontecem determinadas [???] em que não adianta você se defender.
24:42 "Vamos botar um rótulo em você, e você"... bom, sei lá, vou resumir com essa expressão mesmo, tá? "Defensores de pedófilos".
24:51 Aqui tem uma outra expressão interessante que eu uso a beça.
24:56 É... imagina que um homem te dá um presente e uma mulher te dá um presente. São coisas totalmente diferentes, né?
25:03 São diferentes por quê? Como é que isso funciona? Como é que a gente resume isso numa expressão curta.
25:09 Eu prefiro pensar o seguinte. Pra interpretar esses gestos você olha no "Dicionário de Gestos Masculinos" e no
25:15 "Dicionário de Gestos Femininos", e em cada um desses dicionários "presente" tem um significado completamente diferente.
25:23 Então se eu falo em "dicionários" todo mundo entende... todo mundo do meu público alvo.
25:31 E agora mais um truquinho, ó.
25:34 É... pessoas LGBTQIA+ estão acostumadas com code switching, no sentido de que elas ajustam a linguagem delas de acordo com o ambiente em que elas estão.
25:44 Lembra que dizem que "saudade" é um termo que só existe em Português?...
25:48 Eu acho Hétero muito difícil e tem muitas coisas que eu não sei como expressar em Hétero.
25:51 Hétero é uma língua em que vários conceitos que pra mim são muito diferentes são colapsados num só.
25:59 Deixa eu mostrar meu exemplo preferido. É esse daqui, tá?
26:02 - Ai, amiga, sabe o Fulano? Nós éramos melhores amigos, né? Mas agora eu tô achando que ele tá gostando de mim...
26:10 Tá. Agora vamos examinar isso aqui, tá?
26:13 Repara que o truque é que eu... a partir desse momento daqui eu falo em "Hétero", e eu comparo com "Português".
26:20 Então, o truque é que a partir desse momento "Hétero" vira uma língua - vira uma língua no qual vários conceitos são colapsados num só.
26:28 Então tá, vamos seguir porque tem pouquinho tempo.
26:32 Agora a gente também precisa de um termo técnico pra palavras que têm sentidos totalmente diferentes, como "manga", por exemplo.
26:39 Tem termos técnicos a beça pra isso - polissemia, homônimos, homonímia perfeita, homófomas e homógrafas...
26:45 Mas em determinadas situações é melhor chamar essas palavras de "mangas". Pronto, agora é um termo simples que todo mundo do meu público alvo entende o que é.
26:57 Agora, agora... mais um elemento! Tomara que dê tempo de falar tudo.
27:01 É... isso aqui é uma história que é um pequeno exagero de coisas que aconteciam de verdade, tá?
27:05 A história é meio ficcional mas é baseada em coisa que aconteciam a rodo.
27:13 É... aqui eu tinha uns 13 anos, era uma festa de família, mais ou menos em em 94...
27:17 Aí o Tio Paulo resolve puxar assunto comigo. Que que você quer ser quando crescer? Eu quero estudar Física!
27:23 Pra quê? Ah, pra inventar tomógrafos muito melhores do que os de hoje! Pra quê?
27:28 Pra encontrar a cura do câncer! Pra quê? Pra ganhar o Nobel! Pra quê? Pra ganhar bilhões de dólares! Pra quê?
27:35 Pra comprar um iate de 150 metros! Pra quê? Pra comer muitas mulheres! AAAAH, TÁÁÁÁ.
27:43 Gente, juro, a década de 80 era assim, Ih, tá 94 aqui? Não, caramba, devia ser 84...
27:50 Bom, repara, eu poderia usar termos mais técnicos aqui...
27:53 Eu poderia falar em finalidade última, objetivo final, desejos considerados verdadeiros e desejos considerados falsos...
28:00 Ou até eu poderia citar a introdução do Gender Trouble da Judith Butler.
28:05 Aqui eu peguei ela em inglês, é... não vou ler ela agora... num certo sentido isso aqui é impecável, o texto é maravilhoso,
28:14 mas em algumas situações a gente precisa de algo mais simples e que tem um outro tipo de impacto...
28:19 E aí "Pra comer muitas mulheres" é uma expressão que tem... às vezes tem exatamente o impacto certo, né? Porque horroriza as pessoas.
28:28 E então algumas situações é exatamente a expressão certa.
28:34 É, deixa eu ver... acho que eu vou pular isso aqui porque não dá tempo...
28:41 Tem uma coisa sobre pichações aqui... deixa eu ver. Ah, tá.
28:44 É... deixa eu dar um exemplo sobre situações em que a gente precisa de coisas muito concisas: pichações.
28:54 No início, quando eu era adolescente, eu tinha muito preconceito contra vegetarianos, porque os vegetarianos que eu conhecia eram uns VEGETAIS, tá?
29:01 Desculpem, mas eram. Eles eram contra qualquer forma de violência, inclusive levantar a voz, e eles eram a favor de vidas totalmente contemplativas.
29:11 A sensação que eu tinha que eles tinham feito uma leitura muito rasteira do Bhagavad Gita e se convertido àquilo, e eu ODIAVA aquilo...
29:16 eu pensava: "Nossa, que horror, eu não quero ser assim de jeito nenhum! Eu quero distância distância dessa gente."
29:21 Aí eu comecei a ver umas pichações no Rio de Janeiro que diziam: "SEJA VEGETARIANO".
29:28 E isso era completamente o oposto, né, de como eu via vegetarianos daquela época. Não fazia sentido um vegetariano estar pichando muros.
29:37 E a minha cabeça começou a mudar. E aí em 2002 eu consegui uma bolsa sanduíche para fazer parte do meu doutorado em Montreal.
29:44 E aí lá em Montreal acabei virando vegetariano e depois vegano.
29:48 E é isso aqui um pedaço de um texto grande. É... depois eu mando o link sobre ele...
29:55 Eu publiquei ele em outubro de 2013 porque eu tava...
29:58 ele conectava várias coisas, e falava sobre os protestos da época...
30:02 Aí deixa eu contar essa historinha daqui.
30:03 Aí uma vez eu tava com um monte de outros veganos do Rio naquele restaurante da 1o de Março que é num sobrado e que eu esqueci o nome,
30:11 e tinha umas pessoas muito punks - em vários sentidos - no grupo. E a Bianca - às vezes eu chamava ela de Bianca louca, inclusive -
30:18 tava lá reclamando histericamente daquelas pichações que diziam "SEJA VEGETARIANO"...
30:22 e dizendo que ninguém ia virar vegetariano por causa daquelas pichações. E eu disse: "Como assim, Bianca? Eu virei!" - mas ela me ignorou.
30:30 E na semana seguinte ela tava ela dizendo de novo que aquilo era um absurdo, que aquilo só atrapalhava A Causa,
30:34 que ninguém ia virar vegetariano por causa daquelas pichações...
30:38 E eu tava lá tentando responder de novo, e a gente sempre ficava cada um dizendo a mesma coisa,
30:43 cada um brincando de água-mole-em-pedra-dura-até-que-fura... e ninguém mudava sua posição.
30:51 É... agora...
30:53 Eu resolvi escrever essas coisas pro Marcos... quer dizer, fazer umas perguntas pro Marcos, porque...
30:59 Primeiro, tem uma história que eu não contei direito, que é de como é que eu virei Psicopata do CEFET.
31:05 Se vocês forem na... em um dos links que eu mandei... deixa eu procurar ele aqui, pera aí...
31:15 Ainda tem uns 5 minutos, né? Não, caramba!!! Estourou.
31:24 Bom, então, tem esses links daqui, e aí o negócio é que eu andei denunciando...
31:32 Os meus coleguinhas estavam fazendo aacusações falsas contra mim, eu comecei a denunciar, e aí eles deram jeito de me impedir de entrar na universidade, e não sei quê.
31:40 E agora o processo tá na Justiça Federal, que é exatamente onde eu queria que chegasse. E aí tem um monte de links aqui que são a respeito disso...
31:50 Então... caramba, não dá para resumir agora.
31:54 - Pode tomar alguns minutos para finalizar.
31:59 - Tá legal. Então... eu não tô podendo entrar na universidade e aqui é uma cidade muito pequena,
32:08 quase tudo de interessante acontece na universidade, que é a três quarteirões da minha casa, e eu não posso entrar lá...
32:14 e eu já tava tendo uns ataques de ansiedade, eu tava lidando com esses ataques de ansiedade aos poucos,
32:17 porque eu tava ficando amigo de um monte de gente da psicologia, e coisas assim...
32:22 e um dos jeitos da gente lidar com ataques de ansiedade e fobias é a gente conseguir falar dessas coisas.
32:29 Isso aqui é um trecho do... de um zine que eu fiz, o "Falta Misandria no Movimento Trans"...
32:35 E o lance é que teve uma discussão num grupo do Facebook naquela época e umas pessoas acabaram decidindo me expulsar de todos os grupos que elas pudessem.
32:48 O negócio é que uma pessoa postou um link de um texto e disse que o texto era bem transfóbico...
32:55 mas que ele tinha um debate sobre estupro corretivo, que não sei quê... mas que "não pode ser silenciado", e ela postou o link pro texto.
33:04 O texto foi deletado da internet, tá? Eu não consigo mais achar o original dele. E eu li esse texto, era um texto enorme, eu fiquei com muitas idéias na cabeça,
33:14 e eu fiquei com a sensação de que aquele texto falava de uma coisa muito importante,
33:18 que é que quando a gente tem um determinado problema muito grande na cabeça -
33:25 e naquele momento eu tava com um problema gigantesco que era, tipo, Será que eu sou trans ou não sou? Será que eu começo o tratamento hormonal ou não?
33:34 Será que eu faço coisas cirúrgicas ou não? E coisas assim...
33:40 Então, eu tinha um monte de questões na cabeça que pouquíssimas pessoas iriam entender, e a minha tendência em geral era ficar retraído num canto pensando:
33:49 "Poxa, não dá para falar nada porque ninguém vai entender o que eu o que eu quero dizer... eu não consigo botar em palavras o que eu quero dizer."
33:58 Aí eu li esse texto e o texto era uma maluquice, é... era exatamente o discurso Feminista Radical...
34:03 eu cheguei a encontrar alguns links bem bacanas sobre isso, bem concisos...
34:09 Só que naquele momento eu tive a sensação de que apesar do texto ser maluco num monte de de sentidos ele me parecia um bom primeiro passo.
34:18 Quando a gente tem um problema que a gente não consegue nem expressar e que nos toma numa energia mental enorme
34:34 talvez a gente encontrar uma explicação maluca e falar pro nosso público alvo de amigos muito próximos seja muito melhor do que a gente não fazer nada.
34:38 Isso é alguém que apertou um botão errado?
34:42 - É sim. Pode continuar.
34:33 - Tá. E eu tava com isso na cabeça porque há umas semanas atrás eu tava passando muito tempo nas redes sociais,
34:55 e no Threads mais ou menos metade dos posts que eu vejo são são em português e metade em inglês,
35:00 e os posts em inglês tavam basicamente quase todos sobre um determinado caso de estupro coletivo nos Estados Unidos - "Cornell 57", uma coisa assim...
35:10 E as pessoas estão falando sobre consentimento, e me deu a sensação de que elas tinham uma fantasia de que se todo mundo entendesse o conceito de consentimento
35:18 tudo ia se resolver... e eu via muitos furos naquilo. Então me parecia um caso de...
35:25 uma solução muito ruim, e as pessoas investindo muita energia numa solução... que eu conseguia ver os furos dela muito bem.
35:36 É, aí, basicamente eu comecei a ler os artigos do Marcos, comecei a ler as coisas que ele apontava, comecei a ler os livros que ele tava recomendando,
35:44 inclusive o livro da Catarina Dutilh, e eu pensei: "Caramba, essas pessoas têm termos técnicos pras coisas que eu tou fazendo com uma outra linguagem totalmente diferente...
35:56 Elas tão mapeando quase tudo do que eu tou fazendo de um outro jeito...
36:03 Só que elas estão usando um estilo completamente diferente, e portanto o público alvo delas é completamente diferente.
36:08 Às vezes eu preciso, o que vai resolver as coisas no meu caso,
36:11 é conseguir contar as histórias com determinado tipo de concisão, que é um um estilo totalmente diferente do delas.
36:20 E aí eu fiz umas perguntas pro Marcos sobre, é... onde é que eu encontrava análise de argumentos, porque eu tava encontrando alguns termos
36:28 que me pareciam ser bons para julgar que argumentos eram bons e que argumentos não eram...
36:33 Eu comecei a tentar aplicar eles pra historinhas, pra tentar ver como melhorar historinhas e coisas assim, e vi que tinha algumas coisas faltando.
36:40 Então tem toda essa parte técnica do... que iria conectar o que eu apresentei agora com a literatura usual a respeito,
36:46 que não deu tempo de fazer... tá? E aí eu resolvi apresentar só as coisas que que deviam ser completamente novas.
36:53 A conexão entre isso e o que vocês estão estudando existe, mas eu não tenho tempo de apresentar.
36:58 Então, pronto, já estourei o tempo.
37:03 Alô, alô.
37:04 - Opa, Eduardo, você não gostaria de falar da conexão do que você tá fazendo com o que você leu do...?
37:09 - Eu... eu não gostaria, porque eu gostaria de falar quando tivesse um índice super bem organizado pra, é... em que página e com que termo
37:21 aparece cada coisa que eu apresentei. E aí eu falaria também das coisas que eu ainda não consegui localizar, então prefiro ficar devendo
37:27 e a gente tem mais tempo para discutir.
37:30 - Tá. Beleza. Então é isso. Perguntas, comentários pro Eduardo?
37:37 Aí, tem aqui muita gente interessado na discussão sobre...
37:45 - Oba!
37:47 - ...vários exemplos aí que Eduardo apresentou.
37:52 - Ah, então deixa eu só falar mais uma coisa. A gente tentava contar historinhas e fazer coisas interessantes
37:56 exatamente pra gente ficar amigo de pessoas legais, para a gente conseguir mais interlocutores.
38:00 Então, pronto! Virem meus amigos de WhatsApp, Facebook, coisas assim e a gente conversa por lá!
38:12 - É... uma primeira curiosidade, por que que o seu arquivo se chama "2026dutilh"?
38:20 - Porque era um seminário, e você me deu a impressão de que no seminário vocês estavam começando a partir do livro da Catarina Dutilh
38:38 e pegando um montão de outras coisas relacionadas. Aí esse é... eu tô querendo apresentar esse material em vários lugares, e essa é a minha primeira apresentação...
38:39 mais bagunçada. Aí eu botei esse nome.
38:41 - Mas você gostaria de apresentar para uma uma audiência mais de... Computação, de Filosofia, de Psicologia... que você mencionou?
38:48 - Eu fiquei amigo do pessoal do CAPS daqui, umas pessoas de Psicologia... eles me convidaram para um evento que vai ter no Rio daqui a três semanas,
38:58 que eu tenho que submeter uma um resumo daqui alguns dias... e já me convidaram pra apresentar lá, então é só fazer um resumo
39:04 e eu acho que vai ser aceito. Por enquanto não tenho outras ideias de lugares para para apresentar
39:10 e ainda não tenho base suficiente pra transformar isso num artigo. Então primeiro eu prefiro conversar com um bocado de gente de vários meios diferentes.
39:24 - Sim. Eu acho que o que você apresentou como eh deslizamento semântico, é... me parece ser muito próximo de
39:32 coisas que a gente tá fazendo no grupo sobre essa matriz mais inferencialista, né, de relações. O significado ser dado por inferências, né?
39:40 Não, pela referência, até porque, sei lá, o termo conceito homem, o conceito mulher, não necessariamente tem essa referência, ou uma representação estável,
39:50 mas o significado é fixo e objetivamente fixo. Ele não é algo subjetivo na mente, também não tá fora...
39:56 é como um pedaço de coisa no mundo, mas é talvez organizado pelas relações do que se segue ou não do do uso, né, do conceito...
40:07 - Isso.
40:09 - É, então o que você tá chamando de deslizamento semântico parecia uma explicitação de uma cadeia de inferências, né,
40:16 que parecem fixaram... pra aquele determinado grupo, né?
40:19 - Isso. A gente geralmente usa "deslizamento semântico" quando a gente quer denunciar os casos em que as inferências estão todas erradas.
40:26 - É, elas não se seguem, né? Ou seja, você tá querendo bloquear uma das inferências.
40:31 - É, tem uma coisa meio paranóica por trás. Eu acho que essa coisa paranóica tem a ver com determinados artigos de psicanálise que eu tô começando a ler.
40:41 - Hm. Então acho que captura bem o que a gente tá tentando fazer. A gente tá tentando dar uma teoria do significado que pudesse comportar o que você tá apontando, né?
40:49 O significado não é dado pela referência, é um pedaço de coisa no mundo, mas é fixado pelas inferências.
40:56 E se ele é fixado pelas inferências, você pode tentar... o que você tá fazendo é explicitar as inferências, resistir algumas, disputar outras,
41:03 pra tentar transformar o conceito. Que que é transformar o conceito? Transformar o uso, né? O uso que é inferencialmente articulado dele.
41:13 Acho que é próximo do que tá sendo.
41:15 - É o que você falou de aquilombamento, né?
41:18 - É. Não, mas veja, é como se... o que que é o significado desse conceito, não é?
41:24 referência é uma coisa, nem abstrata e nem concreta, é um pedaço de corpo, por exemplo, também não é uma experiência subjetiva,
41:32 mas é esse conjunto de, de... de usos historicamente contingente, mas não é aleatório. Eles são organizados inferencialmente
41:39 do que é compatível com o que, o que que se segue do que. Acho que o procedimento que você tá fazendo de, de...
41:48 mostrar o que você tá chamando de deslizamento semântico é um um expediente expressivista, né, de explicitação de algumas...
41:57 de algumas inferências que não se seguem do uso, né?
42:01 - É. Tem uma coisa que virou meu grande assunto central na minha pesquisa em matemática, que é como...
42:06 é uma determinada técnica pra gente entender coisas muito complicadas.
42:10 E aí são coisas em que a definição geral é muito complicada, mas o que eu tou trabalhando é um jeito da gente fazer a definição geral de um lado e em paralelo fazer um caso particular dela.
42:21 E aí o caso geral e o caso particular tem o mesmo formato quando a gente expressa ele em diagramas e fica fácil traduzir ideias do geral pro particular e do particular pro geral.
42:31 E aí eu tava pensando nisso, em pegar determinados exemplos e usar esses exemplos pra, é...
42:38 discutir coisas que vocês falam em casos gerais.
42:42 - É, mas eu acho que o que eu entendo a... a dinâmica da definição e da aplicação. O que a gente tá tentando
42:49 fazer é pensando em termos daquela espiral, né? Ou seja, você já tem as práticas, elas são organizadas inferencialmente no seu cotidiano...
42:58 E você pode explicitar essas práticas, e a definição ela não tá no cotidiano, né? Em muitos poucos...
43:04 - Isso.
43:06 - Em muitos poucos jogos de linguagem a gente define coisas dessa forma. É, então você tem relações meio difusas, meio confusas, talvez com alguns
43:14 elementos mais nucleares ou mais relevantes, como você fala, traços relevantes ou não, mas a definição ela vai aparecer de uma
43:21 espécie de exercício mais intelectual, mais organizado, a partir da explicitação de algumas inferências que já estão nessas práticas, né?
43:29 Isso de explicitar em uma definição, essa definição ela pode retroagir, retornar às práticas de onde você a retirou,
43:37 coordenar elas, né, normativamente, orientando, disciplinando essas mesmas práticas, mas você tem essa espiralização, né?
43:45 A ideia de um ativista é tentar controlar um pouco melhor essa espiralização, né? Quanto a isso, as práticas difusas
43:54 talvez virem uma definição que na verdade é contra as próprias práticas ou... orientam as pragas de uma maneira, é... inadequada, ou inapropriada.
44:05 - É, muita gente que eu conheço fica tentando mudar determinadas coisas simplesmente denunciando os termos que as pessoas usam e dizendo: "Olha, esse
44:13 termo aí é incoerente", "isso aqui é um termo vago", coisas assim... Eu acho que isso não funciona bem. A minha sensação é de que a gente consegue um resultado
44:21 muito melhor quando a gente pega essas esses conceitos vagos, a gente mostra como eles funcionam e a gente consegue mostrar um uso melhor deles.
44:29 - Muito bom. Gostei. Exatamente. Acho que capturou muito bem. Eu acho que é isso.
44:33 Acho que as nossas práticas linguísticas comuns, elas são históricas, mas não são aleatórias.
44:40 Você pode explicitar esses usos difusos e confusos de uma determinada forma e tentar pressionar coletivamente que essa organização, essas definições,
44:51 elas retornem nas próprias práticas, orientando elas de uma outra maneira, né? E tem um elemento político em relação a isso.
44:59 - Ah, deixa eu fazer uma propaganda de uma coisa atual em que eu tou trabalhando...
45:02 Eu tou nessa briga com as meus coleguinhas, né? Então, se vocês forem na minha página, que é essa daqui - deixa eu ampliar um pouquinho...
45:11 O truque é vocês procurarem os textos que tenham os títulos mais engraçados. Então, por exemplo, se vocês
45:19 chegarem no "Ordens burras, versão catchorro", vocês vão chegar num num texto que é exatamente sobre uma determinada coisa que tava acontecendo aqui,
45:26 que eu tive que denunciar... e, bom, prefiro só deixar a dica para vocês. Leiam, tá? Mas não quero explicar isso agora não.
45:35 Vamos usar o truque do "não tenho tempo".
45:38 - Ok. Sim. E, talvez... como é que você pensa essa dinâmica de uma espécie de núcleo que você tá apresentando de usos de coisas, e da... você faz uma distinção entre o núcleo e...
45:50 - Eu penso muito no diálogo... isso funciona no diálogo, em especial no diálogo com algumas pessoas.
45:58 Quando a gente... às vezes a gente conta uma história pra uma pessoa e a história... a pessoa acha aquilo uma história muito legal,
46:04 e aí ela fica interessada e e depois que ela se interessa, a gente consegue mostrar coisas um pouquinho mais complicadas para ela.
46:12 Mas tem algumas pessoas que também tão tentando construir as próprias histórias para conseguir falar de coisas complicadas.
46:17 Quando encontro uma pessoa dessas ela vai não só achar a minha história legal, como ela vai começar a discutir as técnicas que eu usei em cada pedacinho,
46:20 e vai mostrar histórias dela, vai usar técnicas dela, e coisas assim. Então às vezes o objetivo é encontrar pessoas assim.
46:34 - Mas você acredita que esse núcleo, ou kernel, que você tá apontando, ele é um núcleo que é, digamos,
46:43 relativo a cada grupo diferente ou a cada estratégia individual sua para grupos diferentes?
46:49 - É, ele é mais ou menos estável. Em geral, quando a gente conta uma história, é...
46:56 que a gente preparou e que tem um... que a gente sabe que tem um determinado núcleo, as pessoas ficam exatamente com aquele núcleo na cabeça.
47:08 Às vezes elas lembram de outros pedaços também, mas em geral é [...] tem energia.
47:13 - Então, o que você tá chamando de núcleo é uma espécie de estratégia de apresentação, né?
47:19 - É uma estratégia de apresentação. Aí se você for ler os artigos... os livros do Peter Brook, em que ele falou sobre teatro, cinema, e coisas assim,
47:24 sobre como você fazer peças e filmes que maravilham as pessoas e transformam as pessoas,
47:29 ele tem uma noção muito clara de como é que... como é que a gente procura isso. É claro, mas ao mesmo tempo é uma coisa que é meio uma linguagem de artista, né?
47:41 Ele tá tentando fazer uma mágica com... com técnicas que pessoas muito racionais não vão entender, mas que, sei lá, um músico entende, um ator pode entender,
47:50 e ele... e ele passou décadas trabalhando o jeito de falar sobre essas coisas, então...
47:54 acho que vale super a pena ler os livros dele, que são incríveis, são super claros e tem um jeito de falar dessas coisas que é muito bacana.
48:06 - Sim, mas esse núcleo, essa... digamos, essa apresentação estratégica, então ela talvez ela relativa a decisão da pessoa pra adaptar para cada audiência diferente, né?
48:16 - Sim.
48:18 - É... independente dessa decisão do... de apresentação, não existe um núcleo, né?
48:23 - Aaaah... nesses casos existe. Você vê, nessas histórias que eu contei aqui eu primeiro contava uma historinha, mas depois provavelmente as
48:31 pessoas ficavam com uma determinada expressão dela na cabeça... e aí eu começava a poder usar essa expressão para outras coisas. Por exemplo, uma das
48:39 minhas primeiras histinhas foi, é... peraí, deixa eu voltar para cá... achei.
48:55 Então, eu comecei com essa... essa história bem curtinha daqui, e a partir do momento em que as pessoas ouvem essa história a gente começa a poder usar a expressão
49:03 "piada sobre estupro" para um montão de coisas diferentes. Por exemplo... um outro exemplo um pouquinho diferente é, eu posso dizer pros alunos: "Olha, vocês
49:11 vão ter que aprender a falar, vocês vão ter que aprender a perguntar, provavelmente suas primeiras perguntas vão ser muito ruins.
49:18 E às vezes vocês vão tentar falar e vocês vão ver que vocês só conseguem falar besteira. Imagina um aluno que ele ouve que precisa falar, mas ele só
49:26 consegue falar sobre piadas... de piada sobre estupro". Então, você vê, eu tou reusando essa expressão pra uma coisa um pouquinho diferente.
49:40 - Eu acho que em linhas gerais é compatível com algumas coisas que a gente tá fazendo, porque você tem claramente esse viés mais pragmatista, né,
49:48 de estratégias para para uma determinada finalidade, tem uma visão mais pluralista de coisas também, e pensa na possibilidade da revisão
49:56 desse... desse uso desses conceitos. Não porque ele é falso... não porque ele é falso, mas porque, é...
50:05 talvez ele tenha implicações inadequadas, ou insuficientes, ou inapropriadas, né?
50:12 Ou seja, você tá tentando revisar o conceito em função da... das consequências do uso dele. Acho que é compatível.
50:19 - Ahã. Pois é... fiquei devendo a correspondência entre o que eu tava fazendo e a... e os livros que eu tava lendo.
50:28 Eu gostei mais dos seus do que do da Catarina. Achei que o dele é um bom mapa pra...
50:32 - Obrigado. Muito gentil.
50:38 É como se, de certa maneira, Eduardo, tem, eu acho que na... nessa coletânea que eu mandei para você desses... desses trabalhos,
50:48 tem um trabalho especificamente sobre a certeza de ser homem, né?
50:53 - Opa, eu quero isso.
50:55 - É... inclusive a Juliany, que escreveu aqui no chat, ela... ela é co-autora, né, desse artigo, né?
51:06 "Ser homem é uma certeza fulcral?", é uma pergunta...
51:09 - Ahã. Ah, legal. Quero ler isso.
51:13 - Ele tá nessa coletânia mais longa que a gente viu, a da "Neopragmatismo Periférico", né?
51:18 - Sim, sim, sim. Eu tenho ela aqui.
51:23 - O Fábio... o TCC do Fábio tem esse conceito de violência gramatical, o do Jeferson também...
51:32 e o Fábio tá com um projeto agora de doutorado, "pensando o sexo como uma "certeza fucral".
51:39 - Ahã. Ah, legal. Preciso ler tudo isso. Vou ler... daqui a pouco.
51:57 - Acho que você pode passar. Eu não lembro mais. Tem tanta coisa que a gente faz... eu acho que é o capítulo... não é esse capítulo cinco aí?
52:06 - Aah, oba! Vou ler.
52:13 - Sim, a gente tem... a própria Juliany tá fazendo um doutorado sobre isso... o Fábio tá tentando entrar no doutorado também com esse tema... tá?
52:25 - Eu li algumas coisas de vocês. Eu li, sei lá, 100 páginas do livro da Catarina, mas é muita coisa. Não li tudo não.
52:30 - Pois é, certamente.
52:33 - A Juliany tá falando "todas essas historinhas eu venho muito a Wittig como eu fio teórico condutor pra se pensar a heterossexualidade".
52:47 "Só conheço ela de nome". Esse é o da "heterossexualidade compulsória e existência lésbica".
52:53 Tá. Beleza? Então, veja, Eduardo, tem muita figurinha que você pode trocar com o pessoal do... do grupo. Acho que eles não tão fazendo perguntas agora
53:01 porque também é muito novo e eles tão... tão tímidos aí.
53:05 - Tá, pera aí. Vamos, deixa eu fazer o seguinte. Vou passar o meu número de WhatsApp, aí quem quiser me manda... me manda um oi, tá?
53:10 Aí depois a gente descobre outros modos melhores de se comunicar.
53:13 - E eles têm... certamente têm um projeto... tem projetos de doutorado sendo desenvolvidos em relação a isso, né?
53:23 Eles podem mandar bibliografia também... mas em Filosofia, tá? É, a respeito disso.
53:35 E certamente se eu pensar em alguma coisa, eu mando para ti também, né?
53:37 - Beleza.
53:39 - Mas eu acho que tem muita, é... acho que tem muita compatibilidade teórica, filosófica, e inclusive política também.
53:51 - Ahã! Obrigado pela oportunidade, obrigado por você ter me convencido de que eu não precisava ficar em pânico, porque eu podia apresentar bagunçado mesmo...
54:00 - É, eu acho que o que a gente tá... uma das coisas que a gente tá tentando fazer em Recife é tentar ter, é... um vocabulário conceitual
54:07 que permita à gente falar das coisas que a gente acha que são importantes, né?
54:16 Então, é... acho que muito do trabalho que a gente vem fazendo ultimamente é tentar introduzir conceitos
54:24 pra mapear melhor fenômenos e idéias que a gente vai estar... que tem tempo e uma outra de... e talvez...
54:33 mostrando que uma outra... várias outras tradições... elas não têm boas respostas para coisas, questões que a gente tá tentando pensar também.
54:43 Inclusive em termos de classe, em termos de de raça, em termos de gênero.
54:49 - É. e às vezes a gente chega numa numa estruturação que é ruim, mas que é o melhor que a gente consegue agora, e a partir daquilo a gente consegue chegar em algo melhor, né?
54:58 - Não, certamente, cara. Certamente. Eu acho que pra fazer uma... uma apresentação eh como essa, onde tem tanto de você,
55:07 tanto tão pessoal assim, e essa espécie de potência filosófica ainda tentando se organizar,
55:14 é melhor fazer em grupos onde a gente é melhor acolhido e onde a gente pode...
55:20 - Exatamente. Exatamente. (...) o WhatsApp, tá?
55:30 - Fazer coisas mais pessoais com um grupo que é contrário e talvez violentamente contrário é ruim.
55:37 - É, se eu for tentar apresentar isso para pessoas que têm cabeça de engenheiro, eles só vão dizer que "ai que absurdo, você tá botando palavrão nos seus slides", essas coisas assim.
55:46 - É, ou talvez... é, acho que é o que coisa que eu falo com Carlos Brito lá da... da Federal do Ceará... ele também é da Lógica e e da Computação, né?
56:00 Mas eu acho que ele é muito mais filósofo do que...
56:03 - Tá... eu não conheço ele não.
56:07 - Eu acho que você tem muita coisa de Filosofia.
56:10 - Sim! É, o meu day job é com Matemática, né?
56:15 Mas as coisas que eu faço estão muito mais em outra direção.
56:18 - É, acho que tem vários matemáticos que são excelentes filósofos... beleza?
56:24 - Então tá.
56:26 - Alguém mais quer fazer perguntas? Algum comentário? O Bruno Luiz, vai lá, Bruno.
56:34 - Opa.
56:35 - É... eu queria fazer uma pergunta, acho que como o Marcos mencionou também, né, tem bastante coisa, é, relacionada às várias pesquisas do grupo, né?
56:44 Você tinha comentado que em dado momento você começou a repensar também, né, o que é masculinidade e tal. Você falou que é vegano, né? Eu também sou vegano, e tal.
56:53 E eu queria saber se você pensa que essas coisas estão relacionadas, né? Se, é... uma idéia de masculinidade que tem relação com o consumo de carne, por exemplo.
57:04 - Para mim tá muito relacionado, porque para mim um traço muito básico do masculino é você achar que tudo é frescura, então você se orgulha de ser
57:11 bruto, de... de ser capaz de desligar sua empatia, coisas assim. Eu posso te mandar um trecho maravilhoso de uma, é...
57:20 uma autora que é bióloga e que é trans em que ela fala... caramba, não vou saber reconstruir agora. Ela chama Julia Serano.
57:26 Daqui a pouco eu encontro o parágrafo e mando pra você.
57:30 Mas deixa eu insistir, tá? Me manda um oi pelo WhatsApp porque senão daqui a pouco eu não vou saber como falar com vocês.
57:36 - Não, mando sim! Eu tenho muito interesse! Assim, eu tenho trabalhado no... na minha dissertação do mestrado, né,
57:41 o livro da Carol J. Adams, que é "A política sexual da Carne", né?...
57:45 - Ah, eu conheço esse livro.
57:47 - Eu gostaria muito de conhecer mais literatura sobre ele. Certamente.
57:52 - Tá legal. Gente, agora vocês falam, tá? Eu tô meio grilado com a hora e eu tou achando que eu falei demais, então eu quero é botar vocês para falarem, tá?
58:06 - Alguém quer fazer mais algum comentário, alguma pergunta?
58:11 - É, eu acho que eu só queria, como eu já coloquei no chat, colaborar, porque essas historinhas que... que você traz, né,
58:18 ao longo do da sua apresentação, me remeteram muito à Monique Wittig, né,
58:24 que ela basicamente atribuiu a essa idéia de que o homem e a mulher são construídos a partir dessa idéia da heterossexualidade...
58:32 inclusive a própria mulher, ela vai dizer, né, que as mulheres lésbicas, na verdade, não são mulheres, porque a mulher ela foi pensada
58:42 a partir dessa... desse local heterossexual, então ela foi pensada a partir do que é o homem, e ela...
58:46 - Eu lembro disso.
58:48 - E ela vai dizer justamente que lésbicas não seriam mulheres por conta disso. Aí eu fiquei pensando muito nisso, né, até indiquei,
58:55 tem o o texto dela também que é "A existência lésbica", que é muito bom, e vai trazer muitos pontos. Eu acho que você poderia atrelar nisso também pra...
59:04 pra fortalecer. E acho que a única coisa que eu senti mais falta, acho que Marcos chegou a pontuar, foi mais esse ponto da conclusão, é... de pra onde
59:14 essas historinhas elas vão caminhando, né? Fica... fica... fica aquela... a impressão, mas você não fica com a certeza de que é
59:22 isso mesmo que você tá entendendo. Eu acho que só talvez amarrar isso pra fortalecer o seu argumento que você tá propondo a partir dessas histórias.
59:32 - É, eu tô tentando, juro, mas hoje eu tou apresentando material bem incompleto, pela primeira vez.
59:39 - Legal. Muito obrigado pela confiança e pela coragem também, tá?
59:52 - Então tá. Quando vocês quiserem vocês desligam e me mandem oi pelo WhatsApp, tá?
59:59 Ou pelo e-mail. O meu e-mail é super fácil de lembrar - eduardoochs@gmail.com. Vão ficar dois "o"s colados, tá?
1:00:14 - Beleza. É... gente, então, é... muito obrigado, Eduardo, pela fala. Eu vou fechar essa sessão
1:00:23 e acho que em algum outro momento o Jefferson ia querer falar comigo... Eu vou mandar um outro link, e aí entro daqui a
1:00:32 5 minutos porque eu vou tentar resolver outras coisinhas rapidinho aqui. Beleza?
1:00:36 - E quando der você me manda a gravação, tá?
1:00:40 - Ah, é, ainda tem isso de gravação. Certamente. Vai demorar um pouco para processar tudo, né?
1:00:45 - Tá legal. Tá bom.
1:00:47 - Mando sim. Se eu esquecer pode insistir comigo.
1:00:50 - Beleza. Tá bom. Obrigado, gente! Tchau! Boa próxima reunião para ir vocês.
1:00:56 - Valeuzão. Valeu.
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