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Lector in Fabula e dúvidas em textos de Matemática (jun/2026)

Oi lista,

eu tava tentando escrever uma introdução pra umas notas de seminário, pra explicar o estilo dessas notas e explicar que elas vão lidar com "dúvidas do leitor" de um jeito muito diferente dos textos "normais" de Matemática, e resolvi procurar de novo na Internets algum scan do "Lector in Fabula", do Umberto Eco, que me marcou muitíssimo quando eu era adolescente... e eu finalmente encontrei um scan no Scribd. Segue um trecho:


Para concluir, acrescentamos que os textos fechados resistem mais ao uso do que os textos abertos. Concebidos para um Leitor-Modelo muito definido, com o intuito de dirigir repressivamente a sua cooperação, deixam espaços de uso bastante elásticos. Tomemos as histórias policiais de Rex Stout e interpretemos a relação entre Nero Wolfe e Archie Goodwin como uma relação "kafkiana": por que não? O texto suporta muito bem este uso, nem se perde o entretenimento da fábula e o gosto final da descoberta do assassino. Mas tomemos agora O Processo de Kafka e Ieíamo-lo como se fosse uma história policial. Legalmente é permitido, mas textualmente produz um resultado infelicíssimo.

Proust podia ler o horário dos trens, reencontrando nos nomes dos lugarejos do Valois doces e labirínticos ecos da viagem nervaliana em busca de Sílvia. Mas não se tratava de interpretação do horário, porém de um uso legítimo deste quase psicodélico. Por sua vez, o horário prevê um único tipo de Leitor-Modelo, um operador cartesiano ortogonal com um senso vígil da irreversibilidade das sucessões temporais.


3.5. AUTOR E LEITOR COMO ESTRATÉGIAS TEXTUAIS

Num processo de comunicação, temos um Emitente, uma Mensagem e um Destinatário. Com freqüência, tanto o Emitente quanto o Destinatário são gramaticalmente manifestados pela mensagem: |Eu te digo que...|

Quando está às voltas com mensàgens de função referencial, o destinatário utiliza estes traços gramaticais como Indices referenciais (|eu| designará o sujeito empírlco do ato de enunciação do enunciado em questão, e assim por diante). O mesmo pode acontecer também com textos bastante compridos como cartas, páginas de diário e, enfim, tudo o que é lido para adquirir informações a cerca do autor e das circunstâncias da enunciação,

Mas, quando um texto é considerado enquanto texto e especialmente nos casos de textos concebidos para uma audiência bastante vasta (como romances, discursos políticos, instruções cíentffícas e assim por diante), o Emitente e o Destinatário acham-se presentes no texto não tanto como pólos do ato de enunciação, mas como papéis actanciais do enunciado (cf. Jakobson, 1957). Nestes casos o autor é textualmente manifestado apenas como (i) um estilo reco- nhecível - que pode ser também um idioleto textual, ou de corpus, ou de época hístôrica (cf. Tratado, 3.7.6); (ii) um puro papel actancial (|eu| = "o sujeito deste enunciado") (iii) como ocorrencia ilocutiva (|eu juro que| = "há um sujeito que realiza a ação de jurar") ou como operador de força perlocutiva que denuncia uma "instância da enunciação" ou então uma intervenção de um sujeito estranho ao enunciado, mas de qualquer maneira presente no tecido textual mais amplo (|imprevistamente acontece alguma coisa de horrivel...|; |...disse a duquesa com voz de fazer tremer os mortos...|). Esta evocação do fantasma do Emitente costuma ser correlativa a uma evocação do fantasma do Destinatário (Kristeva, 1970). Vejamos este trecho extraído das Investigações Filosóficas, de Wlttgenstein, § 66:

(11) Considere, por exemplo, os processos que chamamos de "jogos". Entendo com isto jogos de xadrez, jogos de baralho, jogos de bola, competições esportivas, e assim por diante. O que é comum a todos estes jogos? - Não diga: "deve haver alguma coisa comum a todos porque, se assim não fosse, não se chamariam 'jogos'" - mas olhe se exíste alguma coisa comum a todos. - De fato se os observar, decerto não verá algo que seja comum a todos, mas verá semelhanças, parentescos, e, até, verá toda uma série delas...

Todos os pronomes pessoais (implícitos ou explícitos) não indicam absolutamente uma pessoa chamada Ludwig Wittgenstein ou um leitor empírico qualquer: representam também estratégias textuais. A interferência de um sujeito falante é complementar à ativação de um Leitor-Modelo cujo perfil intelectual só é determinado pelo tipo de operações interpretativas que se supõe (e se exige) que ele saiba executar: reconhecer similiridades, tomar em consideração certos jogos... Do mesmo modo, o autor não é senão uma estratégia textual capaz de estabelecer correlações semânticas: |entendo...| (Ich meine...) significa que no âmbito deste texto o termo |jogo| deverá assumir certa extensão (abrangendo jogos de xadrez, jogos de baralho e assim por diante), enquanto que se abstém propositalmente de fazer deles uma descrição intencional. Neste texto, Wittgenstein não é outra coisa senão um estilo filosófico e o Leitor-Modelo não é senão a capacidade intelectual de compartilhar este estilo, cooperando para atualízá-lo.

Fica claro, portanto, que, doravante, toda vez que usarmos termos como Autor e Leitor-Modelo, sempre entenderemos, em ambos os casos, tipos de estratégia textual. O Leitor-Modelo constitui um conjunto de condições de éxito, textualmente estabelecidas, que devem ser satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado no seu conteúdo potencial [7].


A minha pergunta é meio vaga, e é pras pessoas que costumam pensar muito em termos do "leitor modelo" de cada texto, e que conhecem bem as diferenças entre o estilo dos textos de Matemática em que o leitor tem que se virar sozinho em cada um dos muitos trechos difíceis e estilo dos textos pra discussões e seminários em que a gente quer que os participantes fiquem à vontade pra dizer "não entendi isso aqui"...

Quais são os textos preferidos de vocês sobre esses diferentes estilos?

[[]],
Eduardo...