eu tava tentando escrever uma introdução pra umas notas de
seminário, pra explicar o estilo dessas notas e explicar que elas vão
lidar com "dúvidas do leitor" de um jeito muito diferente dos textos
"normais" de Matemática, e resolvi procurar de novo na Internets algum
scan do "Lector in Fabula", do Umberto Eco, que me marcou muitíssimo
quando eu era adolescente... e eu finalmente encontrei um scan no
Scribd. Segue um trecho:
Para concluir, acrescentamos que os textos fechados resistem mais
ao uso do que os textos abertos. Concebidos para um Leitor-Modelo
muito definido, com o intuito de dirigir repressivamente a sua
cooperação, deixam espaços de uso bastante elásticos. Tomemos as
histórias policiais de Rex Stout e interpretemos a relação entre
Nero Wolfe e Archie Goodwin como uma relação "kafkiana": por que
não? O texto suporta muito bem este uso, nem se perde o
entretenimento da fábula e o gosto final da descoberta do assassino.
Mas tomemos agora O Processo de Kafka e Ieíamo-lo como se fosse uma
história policial. Legalmente é permitido, mas textualmente produz
um resultado infelicíssimo.
Proust podia ler o horário dos trens, reencontrando nos nomes dos
lugarejos do Valois doces e labirínticos ecos da viagem nervaliana
em busca de Sílvia. Mas não se tratava de interpretação do horário,
porém de um uso legítimo deste quase psicodélico. Por sua vez, o
horário prevê um único tipo de Leitor-Modelo, um operador cartesiano
ortogonal com um senso vígil da irreversibilidade das sucessões
temporais.
3.5. AUTOR E LEITOR COMO ESTRATÉGIAS TEXTUAIS
Num processo de comunicação, temos um Emitente, uma Mensagem e um
Destinatário. Com freqüência, tanto o Emitente quanto o Destinatário
são gramaticalmente manifestados pela mensagem: |Eu te digo que...|
Quando está às voltas com mensàgens de função referencial, o
destinatário utiliza estes traços gramaticais como Indices
referenciais (|eu| designará o sujeito empírlco do ato de enunciação
do enunciado em questão, e assim por diante). O mesmo pode acontecer
também com textos bastante compridos como cartas, páginas de diário
e, enfim, tudo o que é lido para adquirir informações a cerca do
autor e das circunstâncias da enunciação,
Mas, quando um texto é considerado enquanto texto e especialmente
nos casos de textos concebidos para uma audiência bastante vasta
(como romances, discursos políticos, instruções cíentffícas e assim
por diante), o Emitente e o Destinatário acham-se presentes no texto
não tanto como pólos do ato de enunciação, mas como papéis
actanciais do enunciado (cf. Jakobson, 1957). Nestes casos o autor é
textualmente manifestado apenas como (i) um estilo reco- nhecível -
que pode ser também um idioleto textual, ou de corpus, ou de época
hístôrica (cf. Tratado, 3.7.6); (ii) um puro papel actancial (|eu| =
"o sujeito deste enunciado") (iii) como ocorrencia ilocutiva (|eu
juro que| = "há um sujeito que realiza a ação de jurar") ou como
operador de força perlocutiva que denuncia uma "instância da
enunciação" ou então uma intervenção de um sujeito estranho ao
enunciado, mas de qualquer maneira presente no tecido textual mais
amplo (|imprevistamente acontece alguma coisa de horrivel...|;
|...disse a duquesa com voz de fazer tremer os mortos...|). Esta
evocação do fantasma do Emitente costuma ser correlativa a uma
evocação do fantasma do Destinatário (Kristeva, 1970). Vejamos este
trecho extraído das Investigações Filosóficas, de Wlttgenstein, §
66:
(11) Considere, por exemplo, os processos que chamamos de
"jogos". Entendo com isto jogos de xadrez, jogos de baralho,
jogos de bola, competições esportivas, e assim por diante. O
que é comum a todos estes jogos? - Não diga: "deve haver
alguma coisa comum a todos porque, se assim não fosse, não
se chamariam 'jogos'" - mas olhe se exíste alguma coisa
comum a todos. - De fato se os observar, decerto não verá
algo que seja comum a todos, mas verá semelhanças,
parentescos, e, até, verá toda uma série delas...
Todos os pronomes pessoais (implícitos ou explícitos) não indicam
absolutamente uma pessoa chamada Ludwig Wittgenstein ou um leitor
empírico qualquer: representam também estratégias textuais. A
interferência de um sujeito falante é complementar à ativação de um
Leitor-Modelo cujo perfil intelectual só é determinado pelo tipo de
operações interpretativas que se supõe (e se exige) que ele saiba
executar: reconhecer similiridades, tomar em consideração certos
jogos... Do mesmo modo, o autor não é senão uma estratégia textual
capaz de estabelecer correlações semânticas: |entendo...| (Ich
meine...) significa que no âmbito deste texto o termo |jogo| deverá
assumir certa extensão (abrangendo jogos de xadrez, jogos de baralho
e assim por diante), enquanto que se abstém propositalmente de fazer
deles uma descrição intencional. Neste texto, Wittgenstein não é
outra coisa senão um estilo filosófico e o Leitor-Modelo não é senão
a capacidade intelectual de compartilhar este estilo, cooperando
para atualízá-lo.
Fica claro, portanto, que, doravante, toda vez que usarmos termos
como Autor e Leitor-Modelo, sempre entenderemos, em ambos os casos,
tipos de estratégia textual. O Leitor-Modelo constitui um conjunto
de condições de éxito, textualmente estabelecidas, que devem ser
satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado no seu
conteúdo potencial [7].
A minha pergunta é meio vaga, e é pras pessoas que costumam pensar
muito em termos do "leitor modelo" de cada texto, e que conhecem bem
as diferenças entre o estilo dos textos de Matemática em que o leitor
tem que se virar sozinho em cada um dos muitos trechos difíceis e
estilo dos textos pra discussões e seminários em que a gente quer que
os participantes fiquem à vontade pra dizer "não entendi isso
aqui"...