Literature
- 1. Al Berto
- 1.1. SIDA
- 1.2. Eu vi a sereia de plástico esfacelar-se
- 1.3. O cão de odisseu fala a antónio cabrita
- 1.4. Última carta de Van Gogh a Théo
- 2. Outros
aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz
arquivámos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas
acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos - a mão queimada
junto ao coração
e mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola
e a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa
assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos mas não voltaram
a telefonar
eu vi
a sereia de plástico esfacelar-se no rubro sal das marés portuguesas
seios tolhidos no sange de um lápis de cor
na boca a fúria das viagens: europas américas arábias
mares estreitos onde é possível morrer
novos países novas profundidades delirantes visões
por entre o coral de teu corpo nómada
vestido de neblina e de rios
breves lâminas sulcam a memória de pequenos espectáculos
e tua mão abre-se para nos oferecer um ovo
ou seria o mundo pintado de branco e amarelo?
eu vi
a sereia do sonho cansado levantar-se luminescente
caminhar incerta pela noite adiante
olhos vibráteis captando a fragrância preciosa dos distantes marinheiros em cio
os dedos por cima doutros sexos lisos como os limos que escorregam para dentro dos sonhos
inocência calcária dos dias
medusas mortas
o corpo enchendo-se com os despojos de um mar
eu vi
a sereia em plástico português
crescer das pérolas insones de uma ostra
e vergar o corpo sobre a folha de papel
fascinada
abria os lábios húmidos para sugar o sexo do marinheiro desenhado
escondia-se depois numa frsta penumbrosa do cais
prolongava a vigília do corpo na observação dos astros
enquanto tu continuaste a desenhar
eu vi
sua transparência de saliva pura atravessar corpos e estrelas
sem que teu corpo sofresse
ou sua transparência diminuísse
até que a noite sequiosa abria caminha às facas adivinhadas
e ao sexo em prazer vigoroso
onde peixes luminosos traçam na água as linhas da palma da mão
eu vi
a sereia de plástico construir um país
e um veleiro para se evadir na direcção doutras ilhas
levando por bagagem os detritos dados-à-costa: garrafas brancas de gin nocturno sapatos inchados panos preservativos usados cacos de louça embalagens carcomidas cartões de caixas ao vento velas da imensa jangada vestígios de comida rápida pentes vidros filmes madeiras fotografias que o tempo recusou morder
e navegou
navegou demoradamente conheceu a sede e a fome
o frio a neve de flutuantes ilhas a alucinação
eu vi
a sereia embriagada abrir garrafas de cerveja com os dentes
e oferecer flores envenenadas aos amantes
dobrada sobre as flores da velhice deixava-as cair
na vertigem fortíssima da aguardente
roía as unhas e a ferrugem dos brinquedos
desenterrava da memória colheres delirantes
restos de rostos carbonizados
areias cobertas de ouro e de peçonha
eu vi
a sereia fender seu próprio coração a golpes de sílex
e tatuar perto do antigo coração um rosto um cereal doente
nas veias rasgadas por monstros marinhos e pelo medo
o imenso medo do fim da adolescência
eu vi
a sereia em plástico português abrir um sulco de solidão
o precipício
e renegar o falso mel da terra debruçada sobre o esquecimento
rectângulo da monotomia donde soçobra o vómito
tudo enlouquece na ponta do lancinante lápis
as lágrimas o grito
eu vi
a sereia soltar das suas mãos a última paisagem viva
a papuola opiácea da morte envolvendo os corpos
antes de mergulhar para sempre na escuridão contínua do mar
eu vi
avermelhadas planícies
onde minúsculos animais fluorescentes semeiam olhos muito abertos
rasgando o confuso orvalho com suas caudas peludas
enroscando-se no doloroso pulso
transformam-se em pulseiras de sangue
a serpente mineral estrangulando o dedo
e no ombro do mar o adolescente nu reclina o corpo de água
dentro do emaranhado de libélulas enfurecdas voando
voando voando
eu vi
não sei há quantos anos te espero
e eis que regressas mendigo e velho
reconheci-te Odisseu
gostaria de me ter erguido ir ao teu encontro
pousar a minha cabeça com a fidelidade destes anos
em tuas mãos gretadas pela demorada viagem
mas eu estou trôpego e quase cego
mal consigo arrastar o etéreo peso dos ossos
e quase não pressenti o cheiro dos teus passos
olhaste-me sabendo que eu te reconhecera
e te esperara pacientemente para morrer
deixa lá
talvez seja possível partilhar uma outra vida
quando nos reencontrarmos
na derradeira travessia do Aqueronte
mas agora vai não demores mais
vai Odisseu
e diz a Penélope que já pode terminar
a interminável e triste tapeçaria
nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar
o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe a mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada
por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol
Three poems by David West
Anaïs Nin
Neil Gaiman
Em Demanda do Prestes João
Sobre Orides Fontela
Peter Orlovsky
Lenore Kandel
Os Carburadores (letras)
Alguns dos autores que mais me marcaram
(só os não-quadrinistas, e começando pelos que eu li mais novo):
Julio Cortázar
Yukio Mishima
Jean Genet
Wilhelm Reich
Ésquilo / Sófocles / Eurípides (eu não distinguia eles bem na época)
Gary Snyder
Robert M. Pirsig
Camille Paglia
Raduan Nassar
Virginia Woolf
Peter Brook
Ursula K. LeGuin
Anne Carson
Anaïs Nin
Homero (só a Odisséia)
J.M. Coetzee
Al Berto
Orides Fontela
David Graeber
Patti Smith
Ta-Nehisi Coates
Algumas das melhores coisas que eu já escrevi estão aqui:
Rape Recovery Journal (PDF)
e na minha página sobre gênero.
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