O menino maluquinho (Amara Moira)Post original da Amara Moira (14/out/2020):
O MENINO MALUQUINHO HOJE
Um jornal tava preparando uma matéria sobre os 40 anos de #OMeninoMaluquinho, do Ziraldo Alves Pinto, e me pediu um depoimento sobre como ele seria hoje. Achei a pergunta curiosa, porque faz décadas que não abro esse livro. Só que aí, mistérios do mundo jornalístico, depois que escrevi acabaram decidindo só publicar uma matéria comemorativa mesmo. Pra não perder o comentário, vou postar aqui pra vcs... peguei pesado? "O Menino Maluquinho" pode ser lido como um passo a passo ilustrado da construção da auto-estima de um homem cis branco heterossexual com o corpo dentro dos padrões hegemônicos. Criança que não cresceu sob o signo da humilhação, criança que aprendeu desde cedo a ser o centro das atenções, estimulada tanto a se sentir bonita, inteligente e levada a sério, quanto a acreditar que o seu "mau" comportamento será desculpado e até admirado pelos adultos do seu círculo (da mesma forma, aliás, como a história do menino Brás Cubas, publicada exatos cem anos antes). Fosse o Maluquinho um menino negro e/ou gordo e/ou afeminado e/ou com deficiência, teriam ainda essa atitude a seu respeito? Me pergunto se essa poderia ser uma história como a minha, ou seja, a história de uma pessoa que, criada para ser homem, se descobriu travesti, mas por mais que eu me identifique com a sua curiosidade, com o seu modo irrequieto de ser, sinto que ou essa criança viveu num mundo feito sob medida para ela (e aí não haveria como ela ser travesti) ou sua história foi contada por um narrador que não conseguia ver o sofrimento que ela, ao tentar desesperadamente ser da forma como queriam que ela fosse, sentia. Os segredos inconfessáveis do Maluquinho, aos quais a primeira edição da obra alude, podem ser indicativos disso. Mas talvez isso seja exagero meu: mais provável imaginá-lo hoje como um homem do mais comum, de família tradicional, defensor do Monteiro Lobato (como o próprio Ziraldo), crítico do racismo reverso e do politicamente correto, quem sabe até um terraplanista que, às escondidas, vai dar uma voltinha na Av. Indianópolis, aqui em São Paulo, para saciar novas curiosidades que a vida adulta lhe trouxe... |